Treino Descalço 1/3 - O "core do pé" 🦶🏼

Atualizado: 22 de Set de 2020

O pé é uma estrutura complexa com muitas articulações e vários graus de liberdade que desempenham um importante papel na postura estática e atividades dinâmicas. Nesta postagem, serão trazidas informações sobre a importância da estabilidade da musculatura do pé, abordando um conceito atual conhecido como “core do pé”. Vinculado a isso, a importância do treinamento descalços é fundamental para proporcionar condições de desenvolvimento da musculatura do pé de forma holística.

O treinamento descalço contempla uma abordagem natural do ser humano. O desenvolvimento evolutivo do arco do pé coincide com as maiores demandas colocadas no pé a partir do momento que os humanos começaram a correr. Em um estudo muito interessante, Rao & Joseph (1992) avaliaram 2300 crianças (entre 4 e 13 anos), dentre meninos e meninas, e compararam o arco plantar ativo das crianças que usavam calçados (n=1555) com aquelas que nunca haviam usado (n=745). Como resultado, 8,6% das crianças que utilizavam calçado apresentavam ausência de arco plantar ativo e somente 2,8% no grupo de crianças que jamais haviam utilizado calçados.

Talvez um dos estudos mais interessantes sobre o tema é de McKeon et al. (2014), o qual aconselhamos a leitura na íntegra. O movimento e estabilidade do arco do pé é controlado por músculos intrínsecos e extrínsecos. No entanto, os músculos intrínsecos são muitas vezes ignorados na rotina de treinamento e reabilitação das pessoas, segundo os pesquisadores. As intervenções para problemas relacionados aos pés são mais frequentemente dirigidas a apoiar externamente o pé, ao invés de treinar esses músculos para funcionarem conforme são projetados.

Neste estudo, é proposto um novo paradigma para compreender a função do pé. O estudo é introduzido com uma visão geral da evolução do pé humano, com foco sobre o desenvolvimento do arco. Ainda, são descritos os músculos intrínsecos do pé e suas relações com os músculos extrínsecos. Muito interessantemente, os autores propõem uma associação entre os pequenos músculos da região do tronco que compõem o núcleo lombopélvico (core) e os músculos intrínsecos do pé, propondo o conceito de “core do pé/foot core”, relacionando com treinamento e avaliação da musculatura do pé.

Em resumo, McKeon et al. (2014) enfatizam que:

▸ O “core do pé” é composto pela interação de que fornecem informações sensoriais relevantes e estabilidade funcional para adaptação às atividades estáticas e dinâmicas. A interação desses subsistemas é muito semelhante ao sistema do core lombopélvico.

▸ Os músculos plantares intrínsecos do pé e os subsistemas neurais desempenham um papel crítico no “core do pé”, atuando estabilizadores locais e sensores diretos de deformação do pé.

▸ A avaliação do sistema “foot core” pode fornecer resultados clínicos importantes sobre a capacidade de ação do pé com a mudança das demandas funcionais.

Por fim, os autores esclarecem mais profundamente aspectos do treinamento descalço. Caminhada e corrida descalços podem ser usados ​​como ferramentas de treinamento para fortalecer o sistema central do pé, incrementando o encurtamento do pé (medida indireta de fortalecimento do pé, pois indica um acionamento do arco). Mais estudos são necessários para determinar se ganhos de força e área transversal dos músculos centrais do pé levam a uma redução nas lesões relacionadas à corrida.

Outra vantagem de estar completamente descalço é o aumento na entrada sensorial recebida da superfície plantar do pé. A entrada sensorial tem sido reconhecida por sua importância na estabilidade postural e padrões de marcha dinâmicos. McKeon et al. (2014) descrevem na revisão um estudo no qual a estabilidade postural unilateral foi maior quando descalço comparada a utilização de meias, sugerindo que as meias filtram a entrada sensorial que auxilia na estabilidade estática. Esta entrada sensorial parece ser importante para estabilidade dinâmica também. Os autores descrevem outro estudo recente de aterrissagens unilaterais e a estabilidade dinâmica foi maior na aterrissagem descalça em comparação com tênis de corrida minimalista e tradicional. Na verdade, a estabilidade progressivamente aumentou com a diminuição da quantidade de suporte de calçado. Estes estudos destacam a importância potencial da entrada sensorial para a função do pé. Portanto, atividades com os pés descalços, em ambientes seguros, deve potencializar a função do pé.


📚 Referências:

  1. Rao UB, Joseph B. The influence of footwear on the prevalence of flat foot. A survey of 2300 children. J Bone Joint Surg Br. 1992;74(4):525-527

  2. McKeon PO, Hertel J, Bramble D, Davis I. The foot core system: a new paradigm for understanding intrinsic foot muscle function. Br J Sports Med. 2015;49(5):290. doi:10.1136/bjsports-2013-092690


Texto por

Rafael Grazioli

Coordenador Científico Escola Villeroy

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