Potência e Força máxima 1/4 - Um panorama geral

Atualizado: 22 de Set de 2020

Quando falamos de capacidade de produzir força e suas diferentes formas de manifestação (força máxima, potência, força resistente, etc), estamos falando, portanto, da aptidão neuromuscular das pessoas. Esta aptidão tem imensa importância na vida e funcionalidade. Os mais fortes sobrevivem?

Um grupo de pesquisadores (Ortega et al., 2012) da Universidade de Granada (Espanha) avaliou 1.142.599 adolescentes os quais tinham entre 16 e 19 anos na época e, após as avaliações de força de membros superiores e inferiores e pressão arterial, os adolescentes foram acompanhados pelos 24 anos subsequentes. Durante este período, 26.145 participantes morreram. Suicídio foi a maior causa de morte (22,3%), seguido de câncer (14,9%) e doenças cardiovasculares (7,8%). O alto índice de força muscular foi associado com 20-35% menor risco de morte prematura por doenças cardiovasculares. Além disso, os adolescentes mais fortes apresentaram 20-30% menor risco de morte por suicídio bem como menor risco de doenças psiquiátricas (esquizofrenia e desordens de humor, 16-65%). Diferentemente, nenhuma associação foi encontrada com o câncer. Os jovens com menores níveis de força muscular apresentaram muito maior risco de mortalidade. Portanto, o estudo indica que baixos índices de força na adolescência podem representar um maior risco para diferentes causas de morte na vida adulta. Trouxemos este estudo simplesmente para enfatizar a importância da aptidão neuromuscular.

Agora, iremos discutir aspectos da diferenciação entre força máxima e potência muscular e, neste sentido, demonstrar suas relações com a funcionalidade e desempenho esportivo. A força máxima é a capacidade de produzir a maior quantidade de força contra uma determinada resistência. A potência, porém, é a capacidade de produzir força de forma rápida. Durante o dia, em tarefas funcionais como subir escadas e levantar de uma cadeira, as contrações musculares precisam acontecer em curtos intervalos de tempo, são contrações rápidas. Ou seja, a potência parece estar mais presente no dia-a-dia das pessoas (Izquierdo et al., 1999). Na curva força-tempo, a força máxima é atingida em torno de 1-3 segundos após o início da contração. As contrações musculares no nosso dia-a-dia acontecem em curtíssimos intervalos de tempo, inclusive inferiores a 1 segundo. Ou seja, a contribuição da força máxima não está tão presente.

Interessantemente, o envelhecimento causa maior depreciação da potência muscular comparada a força máxima. Em um estudo clássico de Izquierdo et al. (1999), um grupo de 32 homens saudáveis foram divididos em três faixas etárias diferentes, ou seja, M20 (média 21 anos, n = 12), M40 (média 40 anos, n = 10) e M70 (média 71 anos, n = 10) e suas capacidades produção de força máxima e explosiva no agachamento foram avaliadas. Valor máximo da força isométrica bilateral no M70 foi menor (P <0,001) do que no M40 e 46% menor (P <0,001) do que o registrado no M20 (P <0,001). A taxa máxima de produção de força (força explosiva) foi menor em M70 (P <0,001) do que no M40 e até 64% menor do que no M20. Estes resultados sugerem que a capacidade de produção de força explosiva diminui mais acentuadamente do que a força muscular máxima quando comparadas em diferentes faixas etárias.

Além do processo de envelhecimento normal, quando há incidência de doenças como, por exemplo, o diabetes mellitus do tipo 2, parece que esta diferença entre força máxima e potência aumenta ainda mais. Sachetti et al. (2013) investigaram a capacidade de produção de força rápida de idosos saudáveis e com diabetes. As contrações isométricas e isocinéticas (em diferentes velocidades) máximas foram avaliadas para os flexores do cotovelo e extensores do joelho. A força isométrica máxima foi semelhante entre os grupos. A força dinâmica dos flexores do cotovelo foi reduzida em pacientes com diabetes nas velocidades de contração mais altas. A força dos extensores do joelho foi menor em pacientes sedentários com diabetes em todas as velocidades consideradas, especialmente em velocidades de contração mais altas.

Além disso, nos esportes onde velocidade, saltos, pivoteio e trocas de direção são necessários, a potência muscular parece ser a variável mais importante, pois quase 50% dos gols em ligas de futebol de elite são antecedidos por ações em alta velocidade (Haugen et al., 2014). Além disso, as ações de potência e alta intensidade aumentaram ~80% ao longo das últimas décadas no futebol de elite (Barnes et al., 2014).

Em relação ao treinamento, diferentes condições são necessárias para otimização da potência e da força máxima. O treinamento de força máxima é realizado com alta carga, enquanto o treinamento de potência necessita de cargas moderadas (ótimas) (Izquierdo et al., 2002). A intenção é algo muito importante também. Independente da carga, parece que a intenção de execução da fase concêntrica de movimento deve ser de deslocamento o “mais rápido possível”. Outro aspecto importante é a relação da potência com a prevenção de lesões. Parece que as lesões de joelho sem contato ocorrem de 17-50 milissegundos após o contato do pé com o solo (Johnston et al., 2018). Neste sentido, a capacidade muscular rápida de estabilização das articulações de forma veloz e eficiente é muito importante.

O kettlebell pode ser uma ferramenta muito produtiva no desenvolvimento de potência. Além de poder ser utilizado como sobrecarga em exercícios típicos de potência como o agachamento com salto, parece que exercícios clássicos como o kettlebell swing são iguais ou até mais producentes do que exercícios com a barra para desenvolvimento da potência muscular. Em um estudo muito legal, Lake & Lauder (2012) testaram a potência e a força máxima de vinte e um homens saudáveis experientes no agachamento antes e depois de um período de treinamento com o kettlebell (KB) ou com a barra (JS) (2x por semana durante 6 semanas). O grupo de KB executou séries de 12 minutos de KB (12 séries de 30 segundos, descanso de 30 segundos com 12 kg se pesavam <70 kg ou 16 kg se pesavam >70 kg). O grupo JS executou pelo menos 4 séries de 3 agachamentos com saltos com a carga ótima que maximizou a potência máxima - o volume de treinamento foi alterado para acomodar diferentes cargas de treinamento e variou de 4 séries de 3 com a carga mais pesada (60% 1RM) a 8 séries de 6 com a carga mais leve (0% 1RM). A força máxima aumentou em 9,8% (p<0,001) após a intervenção de treinamento. A potência aumentou 19,8% após a intervenção de treinamento, sem diferenças entre os grupos. Os resultados deste estudo demonstram claramente que 6 semanas de treinamento com KB fornecem um estímulo que é suficiente para aumentar a força máxima e a força explosiva oferecendo uma alternativa útil aos profissionais do treinamento.

Portanto, a partir do racional estabelecido, obviamente que a força muscular máxima tem sua plena importância na aptidão física, porém, atenção especial deve ser direcionada à potência muscular, dado que esta variável tem papel determinante na funcionalidade e no desempenho esportivo.


📚 Referências:

Ortega FB, Silventoinen K, Tynelius P, Rasmussen F. Muscular strength in male adolescents and premature death: cohort study of one million participants. BMJ. 2012;345:e7279. Published 2012 Nov 20. doi:10.1136/bmj.e7279

Izquierdo M, Aguado X, Gonzalez R, López JL, Häkkinen K. Maximal and explosive force production capacity and balance performance in men of different ages. Eur J Appl Physiol Occup Physiol. 1999;79(3):260-267. doi:10.1007/s004210050504

Sacchetti M, Balducci S, Bazzucchi I, et al. Neuromuscular dysfunction in diabetes: role of nerve impairment and training status [published correction appears in Med Sci Sports Exerc. 2013 May;45(5):1021. Scotto Sacchetti, Massimo [corrected to Sacchetti, Massimo];Di Palumbo, Alessandro Scotto [corrected to Scotto di Palumbo, Alessandro]]. Med Sci Sports Exerc. 2013;45(1):52-59. doi:10.1249/MSS.0b013e318269f9bb

Haugen T, Tønnessen E, Hisdal J, Seiler S. The role and development of sprinting speed in soccer. Int J Sports Physiol Perform. 2014;9(3):432-441. doi:10.1123/ijspp.2013-0121

Barnes C, Archer DT, Hogg B, Bush M, Bradley PS. The evolution of physical and technical performance parameters in the English Premier League. Int J Sports Med. 2014;35(13):1095-1100. doi:10.1055/s-0034-1375695

Izquierdo M, Häkkinen K, Gonzalez-Badillo JJ, Ibáñez J, Gorostiaga EM. Effects of long-term training specificity on maximal strength and power of the upper and lower extremities in athletes from different sports. Eur J Appl Physiol. 2002;87(3):264-271. doi:10.1007/s00421-002-0628-y

Johnston JT, Mandelbaum BR, Schub D, et al. Video Analysis of Anterior Cruciate Ligament Tears in Professional American Football Athletes. Am J Sports Med. 2018;46(4):862-868. doi:10.1177/0363546518756328

Lake JP, Lauder MA. Kettlebell swing training improves maximal and explosive strength. J Strength Cond Res. 2012;26(8):2228-2233. doi:10.1519/JSC.0b013e31825c2c9b

Texto por

Rafael Grazioli

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